O que mostram, de facto, os dados sobre o vício da raspadinha em Portugal, e a quem pode recorrer quem sente que perdeu o controlo? A raspadinha foi, em 2022, o segundo jogo a dinheiro mais praticado entre a população dos 15 aos 74 anos, com 36,8%, e em 2025 representou cerca de 60% das vendas dos Jogos Santa Casa, segundo o ECO. Quem precisa de ajuda encontra-a na Linha 1414 do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), um serviço anónimo, gratuito e confidencial.

Os números sobre a raspadinha circulam sobretudo em títulos de notícia, e quase nunca se explica o que cada um mediu. Este artigo separa três camadas de dados, as vendas do operador, o inquérito nacional do ICAD e o estudo do Conselho Económico e Social com a Universidade do Minho, diz o que se pode e o que não se pode concluir de cada uma e acrescenta um ponto que raramente aparece nas notícias: a raspadinha está fora da supervisão do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ), pelo que a autoexclusão da plataforma do SRIJ não se aplica a ela.

O que é a raspadinha e quem a explora

A raspadinha nasceu como Lotaria Instantânea, lançada a 31 de julho de 1995, e adotou a designação «Raspadinha» em março de 2010. Desde 1 de julho de 2013 vende-se também por via digital, no portal dos Jogos Santa Casa. É explorada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, através do Departamento de Jogos conhecido como Jogos Santa Casa, como um dos jogos sociais do Estado, e o estudo do Conselho Económico e Social descreve a instituição como monopolista deste tipo de jogo em Portugal.

O bilhete mais barato custa 1 euro na rede de mediadores e 10 cêntimos no canal digital, e a venda a menores de 18 anos é proibida por lei, segundo a própria Santa Casa. O Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online (Decreto-Lei n.º 66/2015) identifica a Lotaria Instantânea como a aprovada pelo Decreto-Lei n.º 314/94, de 23 de dezembro.

Quanto se gasta em raspadinha em Portugal?

Os valores mais recentes vêm do Relatório de Gestão e Contas de 2025 do Departamento de Jogos da Santa Casa, que o ECO citou a 9 de abril de 2026. Nesse ano, a raspadinha vendeu 1886 milhões de euros, mais 2,1% do que em 2024, o que corresponde a cerca de 60% das vendas de todos os jogos da Santa Casa. Dividido por 365 dias, dá cerca de 5 milhões de euros por dia, cálculo que serve também de título à notícia. O original do relatório não foi encontrado, e por isso os números se citam com atribuição ao jornal.

IndicadorValorAnoCitado por
Vendas de raspadinha1886 milhões de euros2025ECO, 9 de abril de 2026
Peso nas vendas dos Jogos Santa Casacerca de 60%2025ECO, 9 de abril de 2026
Vendas de raspadinha1,44 mil milhões de euros (50% das vendas)2020Lusa, 19 de setembro de 2023

A passagem de 50% para 60% das vendas em cinco anos é um dado forte, mas assenta em dois relatórios que não foi possível consultar diretamente. Vendas não são perdas. Parte do valor regressa aos jogadores em prémios, em proporção que as fontes consultadas não indicam. Na prática, é frequente confundir-se o valor das vendas com o que os jogadores perdem, e por isso não se calcula aqui nenhum gasto médio por habitante.

Quantas pessoas jogam e com que frequência?

Duas fontes respondem a esta pergunta, com populações e métodos diferentes. O inquérito nacional ao consumo de substâncias psicoativas na população geral de 2022 (INPG), do ICAD, abrangeu pessoas entre os 15 e os 74 anos e coloca a raspadinha em segundo lugar, com 36,8% (indicador «costuma jogar»), atrás do Euromilhões (45,6%) e à frente das lotarias (11,3%) e do Placard (8,8%), segundo a Sinopse Estatística desse ano.

A segunda fonte é o estudo «Quem paga a raspadinha?», relatório de devolução de resultados publicado em setembro de 2023 pelo Conselho Económico e Social (CES) com a Universidade do Minho. Baseou-se em 2554 entrevistas completas a adultos, feitas por telefone entre 6 de março e 29 de junho de 2023, com seleção por quotas. A estimativa dos autores para a população adulta é que 33,8% joga raramente e 8,7% joga com regularidade, e a partir daí calcularam o número de pessoas.

FrequênciaPercentagem estimada de adultosNúmero estimado de pessoas
Diariamente0,7%pouco mais de 60 mil pessoas
Semanalmente4,39%cerca de 380 mil pessoas
Mensalmente3,56%cerca de 310 mil pessoas
Raramente33,8%não indicado no relatório

Fonte: CES e Universidade do Minho, 2023; estimativas dos autores para a população adulta, com base nos censos de 2021.

Os dois levantamentos não se somam nem se leem como uma série no tempo, porque a população, o ano e o método são diferentes. A agência Lusa noticiou a 19 de setembro de 2023, citando os autores do estudo, que os problemas associados à raspadinha poderiam afetar cerca de 100 mil adultos, dos quais cerca de 30 mil com jogo patológico. Este número não foi localizado no texto do relatório consultado, e por isso só se cita com atribuição à Lusa.

Quem joga com mais frequência: rendimento, escolaridade e idade

O contributo mais útil do estudo é o perfil de quem joga com frequência, que os autores definem como quem declara jogar diariamente ou semanalmente. Os resultados são rácios de probabilidades calculados por um modelo estatístico e não percentagens de jogadores: dizer que a probabilidade é cerca de três vezes superior não significa que três vezes mais pessoas de baixos rendimentos joguem raspadinha.

GrupoProbabilidade de jogar com frequênciaEm comparação com
Rendimento mensal de 400–664 €cerca de três vezes superiormais de 1500 €
Rendimento mensal de 665–999 €2,4 vezes superiormais de 1500 €
Ensino básico ou inferiorquase seis vezes superiormestrado ou doutoramento
Ensino secundárioquase quatro vezes superiormestrado ou doutoramento
51 a 65 anos1,6 vezes superior18 a 36 anos
66 anos ou mais2 vezes superior18 a 36 anos
Profissões operárias2,5 vezes superiorprofissões com formação superior
Comércio e serviços1,55 vezes superiorprofissões com formação superior

Fonte: CES e Universidade do Minho, 2023.

A conclusão dos autores é textual: «As pessoas que reportam jogar com maior frequência tendem a apresentar menor escolaridade, profissões menos especializadas e parcos rendimentos.» Quanto ao sexo, o estudo não encontrou diferenças estatisticamente significativas nos problemas de jogo. A tabela descreve uma associação entre condições de vida e frequência de jogo, e não um retrato de um grupo de pessoas.

Vício da raspadinha: o que o estudo mediu e o que não mediu

Para avaliar o jogo problemático, o estudo usou a escala South Oaks Gambling Screen (SOGS), de 20 itens. Na amostra, 96,91% dos adultos ficaram sem problemas, 3,09% tinham risco de problemas de jogo, dos quais 2,11% com risco moderado, e 0,98% enquadraram-se na categoria de provável perturbação de jogo. A SOGS é um instrumento geral para o jogo a dinheiro e não um teste de dependência da raspadinha, pelo que estes valores descrevem os adultos da amostra de um estudo sobre a raspadinha, e não a parte da população dependente desta lotaria.

Entre os 79 adultos com risco de problemas de jogo, 31 declaram jogar raspadinhas com frequência (1,21% da amostra), e é este grupo que os autores comparam com os restantes. Nele foram mais frequentes o consumo de tabaco (45,16%, contra 20,21%), o álcool e sintomas de depressão, ansiedade e stress. São associações, e um estudo deste tipo não permite dizer o que causa o quê. Os autores avisam que quem joga muito e aposta montantes elevados tende a desistir do inquérito, e descrevem o estudo como «ultraconservador». O gasto declarado sugere o mesmo: os inquiridos indicaram 38 a 54 euros por ano, quando as contas da Santa Casa apontariam para cerca de 150 euros.

Porque é que esta lotaria merece atenção? O estudo aponta várias características, entre elas a facilidade de acesso, com muitos pontos de venda por todo o território, o resultado imediato, a simplicidade das regras e o baixo custo de cada bilhete. Conclui que a vulnerabilidade contextual e socioeconómica é uma dimensão crucial para compreender os problemas de jogo. Os sinais gerais de que o jogo deixou de ser lazer estão no artigo sobre os sinais de alerta da dependência do jogo.

O inquérito nacional do ICAD, com outra população, outro ano e outro método, dá valores mais baixos para o jogo problemático em geral, e os dois conjuntos de números não são comparáveis.

O que o SRIJ verifica de facto, e o que fica de fora

O SRIJ supervisiona os jogos e apostas online, os casinos e as salas de bingo. Os jogos sociais do Estado, entre os quais o Euromilhões, o Totoloto, a lotaria, a raspadinha e o Placard de base territorial, são explorados pela Santa Casa e estão excluídos do Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online (Decreto-Lei n.º 66/2015), nos termos do n.º 2 do artigo 2.º, que nomeia expressamente a Lotaria Instantânea.

Daqui decorre que a autoexclusão pedida na plataforma do SRIJ, prevista no artigo 39.º do mesmo regime, não se aplica à raspadinha. O mesmo vale para os limites de depósitos e de apostas do artigo 7.º, que existem na conta de jogador junto de um operador licenciado. Há um artigo próprio sobre como funcionam os limites de depósitos e de apostas no jogo online. São duas coisas diferentes: os instrumentos de proteção do jogo online licenciado não cobrem o jogo social do Estado, e quem se apoia apenas neles pode ficar com uma proteção que não chega a este jogo.

O que abrange a autoexclusão nos Jogos Santa Casa?

Os Jogos Santa Casa têm uma autoexclusão própria, descrita na sua página «Autoexclusão» como «uma ferramenta de proteção que permite ao apostador inibir-se voluntariamente de realizar apostas». Aplica-se ao site e à aplicação, através da Área Pessoal, e ao Placard, neste caso por formulário enviado por correio, por e-mail ou entregue presencialmente. É por tempo indeterminado, a revogação só pode ser pedida passados 180 dias, e os efeitos são imediatos, com confirmação por e-mail.

A mesma página não refere a raspadinha comprada num mediador. Não se pode por isso afirmar que exista proteção nesse caso, nem que não exista. A autoexclusão aplica-se às apostas feitas no site e na aplicação.

Em 2026, o tema voltou ao debate público. A 22 de julho de 2026, no programa Consulta Pública, da Antena 1, uma representante da unidade de jogo responsável dos Jogos Santa Casa admitiu em relação à raspadinha «esse efeito nocivo» e disse que se trabalha na melhoria das medidas relativas ao jogo problemático. Quanto a uma autoexclusão para a raspadinha, afirmou que «poderá ser esse o caminho», sem poder divulgar se está prevista alguma medida específica, e a RTP noticiou que os Jogos Santa Casa «admitem alterações». Nas fontes consultadas, e à data de 2 de outubro de 2026, não há mecanismo anunciado com data nem descrição.

Onde procurar ajuda

A Linha 1414 do ICAD (1414, ou 1414@icad.min-saude.pt para contacto escrito) é um serviço anónimo, gratuito e confidencial, e o ICAD refere expressamente os comportamentos aditivos sem substância, como o jogo, entre as situações a que a linha dá resposta. Isto significa que pedir ajuda não depende do jogo em causa, seja a raspadinha, o Euromilhões ou um site de apostas. A linha atende também quem conhece alguém em situação de risco.

Esta informação interessa também a familiares, porque o perfil de quem joga com frequência inclui pessoas mais velhas e com menos rendimentos, e a pessoa que procura ajuda pode ser um filho, uma filha ou um neto. Na página «O jogo e a família», o SRIJ recomenda reconhecer o problema, encorajar a procura de ajuda especializada e resistir a pedidos de apoio financeiro destinados ao jogo. Os restantes apoios estão reunidos no artigo sobre os sinais de alerta da dependência do jogo.

Este texto não substitui o aconselhamento de um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

A raspadinha é fiscalizada pelo SRIJ?

Não. Os jogos sociais do Estado, como a raspadinha, o Euromilhões e o Totoloto, são explorados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e estão excluídos do regime dos jogos e apostas online, pelo que não estão sob a supervisão do SRIJ. O regulador supervisiona o jogo online licenciado, os casinos e as salas de bingo.

A autoexclusão pedida ao SRIJ impede a compra de raspadinhas?

Não. A autoexclusão da plataforma do SRIJ aplica-se aos operadores de jogo online licenciados em Portugal, e a raspadinha, por ser um jogo social do Estado, não faz parte desse grupo. Serve para travar o jogo online licenciado, mas não a compra de raspadinhas.

É possível pedir a autoexclusão nos Jogos Santa Casa?

Sim, para o site, a aplicação e o Placard, segundo a página «Autoexclusão» dos Jogos Santa Casa. É por tempo indeterminado e a revogação só pode ser pedida passados 180 dias. A página não refere a raspadinha comprada num mediador, e quem quiser saber como funciona nesse caso deve esclarecer a dúvida com a Santa Casa.

Quantas pessoas têm problemas com o vício da raspadinha em Portugal?

Não existe um número oficial único. No estudo do CES e da Universidade do Minho, 3,09% dos adultos da amostra tinham risco de problemas de jogo e 0,98% provável perturbação de jogo, mas a escala mede o jogo em geral e os autores descrevem o estudo como «ultraconservador». A Lusa noticiou, citando os autores, cerca de 100 mil adultos afetados.

Quem joga raspadinha com mais frequência, segundo o estudo?

A probabilidade de jogar com frequência é maior entre quem tem menores rendimentos, menor escolaridade e profissões menos especializadas, e é cerca do dobro a partir dos 66 anos, em comparação com os 18 a 36 anos. São rácios de probabilidades de um modelo estatístico, e não percentagens de jogadores.

O que fazer quando é um familiar que gasta demasiado em raspadinhas?

Na página «O jogo e a família», o SRIJ recomenda aos familiares que encorajem a procura de ajuda especializada e que resistam a pedidos de apoio financeiro destinados ao jogo. A Linha 1414 atende também quem conhece alguém em situação de risco, e o ICAD descreve-a como um serviço anónimo, gratuito e confidencial.

Os prémios da raspadinha pagam imposto?

Pagam imposto do selo de 20% sobre a parcela do prémio que exceder 5000 euros, nos termos da verba 11.4 da Tabela Geral do Imposto do Selo, e é a Santa Casa que o retém. Só a parte acima desse limite é tributada.

O que os dados permitem concluir, e o que ainda falta saber

Sobre o vício da raspadinha, os números pedem cuidado na leitura: a raspadinha é muito jogada, pesa cerca de 60% das vendas dos Jogos Santa Casa, segundo o ECO, e quem joga com frequência tende a ter menos rendimentos e menos escolaridade. Não permitem afirmar quantas pessoas dependem dela, nem provar causas. Falta saber que medidas, se alguma, vão ser tomadas, e se a autoexclusão chegará à raspadinha comprada num ponto de venda. Os princípios gerais estão reunidos na página sobre os princípios do jogo responsável.

Fontes